domingo, 6 de noviembre de 2022

MARIA TERESA HORTA. CINCO POEMAS [1]


PAIXÃO

Eu não sei do coração
a esconder-se sem defeito
no interior da paixão

na dúvida de ter razão
pois dele
entendo o preceito

a perder o coração
à beira-mar
                      do teu peito.

◊◊◊◊◊

PASIÓN

No sé de corazón
que se enconda sin fallos
dentro de la pasión.

Ante la duda de llevar razón,
por ello,
obedezco el mandato

de perder el corazón
junto al mar
                      de tu pecho.

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VULNERÁVEL

Vens até mim devagar
a tecer as madrugadas
olhos de un verde secreto

sorriso tão vulnerável
dedos longos volteando
a descer as minhas espáduas

Frágil?

—Oh, meu amor incomparável!

◊◊◊◊◊

VULNERABLE

Te me acercas despacio
urdiendo a las madrugadas
ojos de un secreto verde,

tan vulnerable sonrisa,
largos dedos que vuelven
a bajar por mis hombros.

¿Frágil?

—¡Oh, incomparable amor mío!

֍            ֍            ֍

LUAR

Tão perto do teu
silêncio
como da luz prateada

do céu
           da tua boca

que o teu beijar
deslumbrava

o céu da minha
boca
que o meu luar

te mostrava.

◊◊◊◊◊

CLARO DE LUNA

Tan cerca de tu
silencio
como de la luz plateada,

del cielo
           de tu boca

que tu beso
deslumbraba,

el cielo
de mi boca
que mi clarear

te mostraba.

֍            ֍            ֍

POMBAS SELVAGENS

Não posso amordaçar
o coração

nem sequer as minhas
lágrimas
com os brancos lírios

das margens.

Deixaste fugir
as nossas
pombas selvagens.

◊◊◊◊◊

PALOMAS SALVAJES

No puedo reprimir
el corazón

Ni siquiera
mis lágrimas
con los lirios blancos

de la ribera.

Dejaste escapar
nuestras
palomas salvajes.

֍            ֍            ֍

O TEU CHEIRO

Continuo a lembrar
o teu
           cheiro:

a fumo acre
a suor pousio
a flor de lacre

como se fosse uma haste
como se fosse um astro
no teu corpo o espaço.

Um rasto, um rastrilho de luz
uma espécie de cruz
que entre os seios eu usasse.

Um veio, um véu
uma névoa, um anseio…

Tão
terno e enganoso.

Tão
revoltoso o teu cheiro.

◊◊◊◊◊

TU AROMA

Todavía recuerdo
cómo
           hueles:

a humo acre,
a sudor en barbecho,
a flor de lacre…

como si fuera un mástil,
como si fuera un astro,
el espacio en tu cuerpo.

Un vestigio, un rastrillo de luz,
una especie de cruz
que llevara entre los senos.

Una veta, un velo,
una niebla, un anhelo…

Tan tierno,
tan ilusorio…

tan revoltoso,
tu aroma.
——————————
[1] De Paixão, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2021.
(Trad. Carla Vicente y Jorge Janeiro)

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